Um hóspede do tempo


Ele estava há muito tempo contornando a Via Láctea e não conseguia retornar. Partira há mais de um ano luz.
As coordenadas da origem não apareciam no monitor. Agora, indicavam um grande buraco negro. Ele então resolveu entrar em contato com alguma outra nave no espaço. Por isso colocou o transponder na frequência livre. Mas o tempo passava e nada acontecia. Em um rápido gesto passou para o canal de alerta máximo. Após alguns instantes soou a sirene intermitente do sinal de contato. Sua alegria se transformou em festejo, quando escutou o som metálico parecido a uma voz que se dispunha em auxiliá-lo. Ele explicou o que sucedia: é porque seu combustível atômico precisava de hidrogênio para resfriar, se não desligaria. O som profundo, quase metálico, parecia vir de outra dimensão. – Disse que não era estranho em viagens intergalácticas, alguns planetas serem engolidos por buracos negros, mas era apenas transporte temporal; reapareceriam noutro ponto. Seu equipamento de posicionamento orbital captaria as novas coordenadas. – Ele, então, solicitou alguma orientação e obteve logo a resposta. O som metálico, afirmou que estava em outra dimensão.

E que sua viagem não era física– ele estava se transportando na velocidade do pensamento – usava outro combustível.
Disse saber de um antigo depósito de hidrogênio abandonado, denominado de Terra, que não era propriedade de ninguém. Ali poderia alimentar o seu reator nuclear e continuar a sua viagem. Dito isso, o som metálico passou as coordenadas da Terra e silenciou. Ele imediatamente colocou-as no computador. E apareceu o pequeno planeta.

A nave – que era uma bola de luz – se orientou para ele. Em poucos minutos a velocidade da luz, pousou perto de uma lagoa. Viu que era grande o suficiente para alimentá-lo de combustível. Seriam uns milhares de litros que passariam por um processo de nanocompactação só para ocupar pouco espaço na nave. Este processo levaria cerca de oito horas/luz, o que equivalia a trezentos anos de vida na Terra. Enquanto isso acontecia, resolveu pesquisar este pequeno planeta/depósito, sem dono. Descobriu que era habitado por bilhões de seres muito pequenos e frágeis, feitos de carne e ossos. Tinham dois membros inferiores para se locomoverem pelo chão, o que os obrigavam a ter um estilo de vida muito peculiar. Notou que a existência deles era curta, mas que não percebiam essa duração. Para eles tudo tinha valor, menos o tempo. Que o utilizavam de forma rudimentar. Eles só viviam alguns minutos/luz. O, que os condenava a nunca saírem do seu planeta. Suas maiores alegrias eram possuir bens materiais em grande quantidade. Se matavam entre eles para consegui-los. Também o faziam por um “Deus” que diziam tê-los criado.

Acreditando que o “Deus” de um era melhor do que o do outro. Criavam animais quase iguais a eles, com o mesmo tipo de órgãos, e o mesmo funcionamento, que no futuro seriam seus alimentos. Usavam o solo para plantar e comer o que produziam; bebiam hidrogênio e oxigênio. Seu organismo devia reciclar o produto dessa alimentação. Respiravam ar rarefeito de fosseis que eles buscavam em grandes profundidades. Os gases e óleos – provenientes desses fósseis – eram usados como energia, para esquentar-se e transportar-se. Logo terminavam respirando as bactérias que eles continham, encurtando suas vidas.

Quando descobriam esses buracos se matavam por suas posses. Produziam armas cada vez mais perfeitas para melhor eliminarem-se. O hóspede notou que além de eles terem uma vida útil, muito curta, deviam ser recarregados todos os dias, eles tinham uma bateria recarregável com “sono”, e durante um terço do seu dia, eles ficavam desligados. Nesses trezentos anos, viu nascer e morrer esses seres, que se reproduziam mais rápido do que morriam. Eram cada vez mais no mesmo espaço físico, logo não teriam mais lugar. Eles viviam em uma fase primaria da evolução. Em tempo universal só tinham alguns poucos anos/ luz de vida.

Durante todo esse período, o hóspede não notou nenhum avanço, muito pelo contrário, cada vez se matavam mais, queriam mais posses e jamais se entendiam. Não conseguiam enxergar que essa “vida” era uma pequena passagem de frações de tempo, só alguns segundos do universo. Haviam criado um sistema, que os aprisionavam – materialismo, sobrevivência, entre tantos outros. E não conseguiam superar esse estado primário.

Esse estilo de vida gerava um aquecimento global e produzia grandes mudanças climáticas. A espécie estava se autodeteriorando. Desastres naturais eram frequentes, e cada vez mais violentos, que, sem dúvida, iriam eliminar a raça. Era o modo que a natureza encontrou para se equilibrar. O hóspede do tempo percebeu que poderia colaborar nessa fase evolutiva. Ele poderia ensiná-los a se alimentar da energia do sol e do ar. Também poderia ensiná-los anular a força da gravidade para transportar-se com mais leveza. Aprenderiam a entender o peso do tempo e, assim, aumentar a sua existência. As baterias deles durariam mais, bem como suas “vidas”. Ele regressou à nave. Foi ao computador para preparar um programa de ajuda. Foi quando escutou a sirene intermitente do sinal de contato, era o som metálico. Perguntou-lhe se já havia se abastecido... Em caso afirmativo, devia retirar-se imediatamente, para não interferir no experimento. E, mais uma vez silenciou...

DEZ/1998

Juan Muzzi