O claro enigma da Arte de Juan Muzzi.


Certamente este relógio não marca mais as horas, se é que alguma vez o fez. O mostrador nos apresenta números fora de ordem, regidos pela gravidade acumulam-se na parte de baixo e, no alto, no ponto em que os ponteiros se encontrarão o símbolo do infinito. O tempo deixou de existir e não pode ser assinalado. E a multidão, figuras alongadas e sem rosto, que ocupa todo o espaço da tela e fisicamente a transcende, nos diz claramente que esta pintura é um recorte da vida cotidiana. Aqui o infinito não é senão sinônimo do anonimato inominável. Em outras telas também esta multidão invade o espaço, anônima, indiferenciada, sem indivíduos. E os mostradores de outros relógios, também eles, desistiram da definição. Neste dia de pesadelo não existe o sol e a lua. Nada, além da insensatez.

A natureza morta, objetos e figuras sobre uma mesa, mapa do mundo, objetividade dividida em espaços geométricos, enumera minuciosamente situações contingentes e simbólicas: utensílios, alimentos, pássaros ancestrais, escrituras que esperamos sagradas em livros de mistérios, o primeiro casal, o sol de raios luminosos, memórias de pinturas de mestres como Torres-García, Mondrian e Alfredo Volpi, ampulhetas, a balança da justiça, a chave de um perdido paraíso, código de barras, peixes espirituais da nova era e, aqui e acolá, a iluminação que se insinua. Cartografia do ciclo de chumbo.

E multidões de seres idênticos e coisificados em esforços inúteis, diante de escadas, paredes e bibliotecas destroçadas. Planos ascendentes e descendentes, ambos conduzindo a lugar algum.
Há um enigma na obra de Juan Muzzi. Esta é uma pintura de extrema visualidade, de absoluta visualidade, inteiramente construída. Nada há fora dela. Esta pintura que ocupa totalmente o espaço, pressupõe um artista de olhar voraz, um artista que tudo percebe, um olhar que tudo vê. Mas o que vê este olhar se em nenhuma destas pinturas encontramos algo reconhecível, do mundo convencionalmente reconhecível ? Nenhum ser humano, paisagem alguma, uma flor que seja. Este olhar voraz tudo recolhe do não visível, do pressentido. A fluidez, o rumo constante, a marcha absoluta, o atemporal, o fluir das águas.
Extremamente atual na sua angústia, a arte de Juan Muzzi aproxima-se, na sua percepção, do ancestral, do olhar de Tirésias, o cego que tudo vê.

O acúmulo de materiais, as multidões, o excesso e a falta na sociedade industrial, o código de barra definindo produtos. A preocupação do tempo da vida, os relógios que não marcam as horas, o esvair da existência. O tempo enlouquecido, indiferenciado, para sempre perdido.

Os ritmos da pintura, o martelar constante, o caráter musical da repetição, a pontuação da pincelada, o uso pictórico das cores primárias. A busca de símbolos e o percurso do entendimento.
A arte para Juan Muzzi é um exercício para a descoberta de sua própria natureza. Uma arte narrativa que procura no fluir a emergência de sentimentos e significados. Signos e símbolos.
É um árduo processo no qual o artista, imerso no tempo sagrado, faz o paradoxal inventário do contingente. Ritmos seqüências na busca da identidade.

Jacob Klintowitz
Curador